É uma distopia?

                O mundo é real demais.

                Se eu só deitar aqui e esperar, minha faculdade não vai se mover sozinha, eu não vou conseguir um estágio, não vou receber minha carteia de motorista. Eu não posso pular a cena para a que eu já tenho toda a minha vida em ordem e sei o que fazer a seguir, porque na verdade eu não sei se consigo levar minha faculdade para frente, como procurar um estágio e tenho medo de falhar com a carteira de motorista.

                Eu seria uma mentirosa se dissesse que farei o meu melhor, já que na minha bagagem não tem nada e nada é o meu melhor. Todos os dias bato numa parede de mentiras que me faz refletir sobre a minha própria vida. Cada notícia lida precisa ser investigada, jornalistas não são mais confiáveis e a verdade nunca foi tão relativa. Eu já sei no que acredito, então encaixo as peças no meu molde, se couber, é verdade.

                O amor nunca foi tão mal definido, a TV mentiu para as pessoas. Ela diz que o amor silencioso é pura dor, e depois de conquistado é pura alegria. Essa paleta ingênua de sentimentos não representa nem de longe o amor. O amor é bondoso e de certa maneira isso basta. Essa bondade vem misturada com a nossa humanidade que transforma tudo num ensopado que temos que escolher temperar bem ou mal.

                Talvez toda a vida possa ser definida assim: uma grande sopa. Pelo menos é assim que eu quero me distanciar do mundo real.

                Ser adulto te dá um grande controle do que você absorve na sua sopa, mas também te faz perceber o seu nível de inutilidade. As palavras aqui escritas são, em sua totalidade, tempo da minha vida em que eu não contribui para o mundo e não ganhei dinheiro (não que essas fossem opções possíveis).

                Eu espero. Então eu nado na minha sopa, que agora parece tão grande quanto o mar, e nunca vou chegar ao outro lado para a minha vitória, mas, veja bem, somos peixes. Melhor só continuar a nadar, certo?

Olhe para mim

                Estou procurando a beleza. Ela me intriga. A beleza agora não parece se tratar da perfeição, mas sim de algum tipo de conjunto da obra. Um ângulo específico da luz ao bater nos olhos de alguém que olha para quem ama. Cada cor da sua íris se destacando e mostrando emoção, como se seus olhos abertos pudessem sorrir à luz. Essa imagem não está em nenhuma pintura ou foto, o que me faz querer saber pintar ou tirar fotos, mas nunca será tão espontâneo quanto agora, e nunca será o mesmo.

                É por isso que é tão bonito: é seu presente para mim. Único e belo, consumindo-se como um beijo, quieto e tão musical. Tão verde, tão fresco. A cicatriz na sua sobrancelha completa seu olhar como as estrelas cercam a lua. Seu olhar é poderoso. Ele abre meus próprios olhos para todas as coisas belas já feitas, as sutilezas que pessoas dedicadas põe em seus trabalhos esperando que alguém como eu veja, a tristeza nos solos de blues, o perfeccionismo na direção de um filme inesquecível.

                Seus olhos me mostram o caminho entre as linhas, que não se trata de segredos no coração do autor, mas da imagem vívida do que se leu. Tudo o que não vem dos seus olhos é vulgar e me faz mundana, é concreto, sem brilho e mata o meu querer.

                Não desprezo, tudo o que você fez por mim é bom, mas é tão pouco quando vejo que tudo o que eu quero é viver entre o verde e o castanho do fundo até o dia em você morrer. Até lá, por favor, me dê a beleza, eu ainda não a compreendi completamente.

Ah… As liberdades?!

O poeta se acha um deus. Com suas palavras, o poeta pode se dar ao luxo de brincar de vida sem necessitar de um computador e dinheiro. O poeta não tem limites, ah, ele bebe, ele fuma (mais de uma erva conhecida), ele mata, ele come. O poeta é mesmo um grande safado.

Mas o poeta tem um Nêmese. Até porque quem o poeta pensa que é para se achar um deus? O poeta não manda em nada. Ele anda junto os muros, olhando as pessoas que andam pelo meio da calçada com liberdade, tentando imitar esse tipo de felicidade. O poeta passa a espuma de barbear pelo rosto e amacia a própria cara quando ninguém dá importância.

O poeta se limita, limita a arte, limita a humanidade. O poeta é seu próprio Nêmese e seu Nêmese é o assassino da alma do homem. O poeta compra as liberdades toscas com facilidade, ele leva para casa as putarias da vida e acredita que, em algum lugar no meio da podridão, vai encontrar o tesouro de seu talento. Ele adora repetir o nome daquilo que choca a quem não gosta. Ele quer ser diferente, mas, com o tempo, ser diferente se iguala a ser igual a todos os diferentes num raio de 100 km.

Então ele só vai chocar com as coisas que ele acha que deve, e o que não chocava vira tabu, liberdade poética só vale para si. Ele não faz mais a barba porque pensa que ela traz a impressão de um homem que pensa tanto, tanto, que mal tem tempo para fazer a barba ou cortar o cabelo. O poeta também apara a barba minuciosamente todos os dias e repete o nó da gravata borboleta até ficar intelectual o suficiente. Ele tatua o rosto de homens bobos e mortos que, à essa altura, devem estar conhecendo o inferno muito bem.

O poeta se torna qualquer outra coisa que não um poeta. As palavras ainda lhe trazem a sensação de poder, mas elas não lhes obedecem mais, seu talento se escondeu em algum lugar dentro da barba, rente ao belo queixo que erguia ao ter consciência de sua própria alma (agora tão morta) no papel.

O poeta morreu de alguma forma óbvia e tosca, como seus ídolos, de overdose ou fuzilado, quem sabe? Mas na realidade, o poeta morreu muito antes, quando esqueceu de onde vinha todo o seu amor próprio e transformou este em arrogância. A solidão foi deixada para traz, trocada por um sentimento parecido, mas cheio de pânico, como estar esmagado por uma multidão sem ser percebido.

Cheio de si e de suas liberdades, de sua petulância inventada no meio do caminho de sua formação de homem feito. Liberdade, liberdade, que é isto que se canta no carnaval? O poeta era livre, quando não achava que era. Quem anda sempre em frente e tranquilo não pode olhar para cima. O poeta olha para quem olhava para frente e mata seu destino, não tão destino assim. Mata sua liberdade ao querer a prisão alheia. As flores que decoram as grades têm cheiro de morte, como nos titãs, mas a dor não vai curar essas lástimas, a escolha do poeta só muda se ele a mudar.

Morreu sem entender verdadeiramente a liberdade, o poeta viveu dos exageros, como tantos outros antes. Não percebeu nas letras a miséria de quem escreveu, a privação da liberdade em prol do exagero. Ah, e o amor.

O amor era burguês, seja lá o que isso significasse, talvez achasse tão bonito que o tatuou em uma costela perdida que a funerária maquiou, sem saber bem se aquilo era bom ou não. Se apaixonou, mas não foi digno do amor. Bebeu do vinho, mas não foi digno do mel.

Affocare

                Tic-tac, o relógio grita. Ele nunca me deixa em paz, esteve pendurado em minhas costas por toda a vida e nunca tirou férias. Eu só tenho oito horas para fazer isso. Não vai dar tempo, não pode haver tempo, é impossível. A ansiedade me impede. A ansiedade altera a estrutura do tempo. Ele não anda linear, ele salta em minha cabeça.

A ansiedade fez o tempo passar do gelatinoso para o liquido, e eu só consigo tentar nadar contra a corrente, sem conseguir fazer o que tem que ser feito. Nade, pequena, nade sem parar e encontre o seu destino, morta da exaustão de lutar contra o inevitável.

Agora olhe para frente.

O relógio nunca me deixa em paz. Com a exceção da regra, é claro.

As coisas são desse jeito, veja: o tempo não para por você, levante sem confiar. Ache a paz. Não a procure nos relógios, eles só gritam. Gritam fascinados por sua despreocupação. A paz está na despreocupação. Não acha? Procure seu gatilho.

Atire em si mesmo.

A bala atravessa seu coração como uma flecha deveria o fazer. Eu sei, é o que parece. A paz está aí, alojada no seu peito.

Nos olhos de seu homem, no amor do Espírito, no abraço de seu pai.

Não caia agora, nós podemos conseguir ficar aqui em cima mais um tempo, só respire e confie. Minhas mãos não vão suar desta vez, prometo. Os olhos de meu homem… Nunca esquecerei de como ficam belos na luz do sol, de como eles sempre mostram uma seriedade que na realidade é apenas uma barreira.

A água não deixa respirar. Só desta vez, vamos tentar. Porque vale a pena ver o tempo passar ao seu lado.

É, acho que isso é uma oração. Aqui dentro tudo é.

                Eu estou sozinha dentro de mim. Meus olhos, minha boca, são a janela de tudo o que guardo aqui. Eu posso até tentar mostrar, mas são janelas tão pequenas que eu posso dar apenas um vislumbre do que realmente é. É um lugar grande demais para que até eu conheça realmente, eu posso apenas tropeçar em algo e descobrir que sempre esteve lá.

A ideia de conhecer tudo por lá é tediosa. Acho que o que dá a graça à vida do jeito que ela é são as coisas que nos deixam confusos pela pouca informação que temos: o universo lá fora, o fundo do oceano, a cidade vizinha, nosso interior.

É preciso foco, mas também é bom saber que não há um limite para quase nada. Todos os dias, eu sou alguém diferente, a metamorfose do espírito não espera alterações físicas para se consolidar. Eu estou aqui, mas não estou mais.

Sozinha dentro de mim, eu não me sinto tão sozinha. Eu não estou, chamem de mitologia, delírio, mas a verdade é que isso não faz a menor diferença. Nunca se está sozinho com Deus. Eu posso escolher entre estar sozinha com outros da minha espécie tola e maldosa que insistem em me desacreditar, ou posso estar no silêncio da minha alma, ouvindo o som delicado do amor movendo-se como o vento dentro de um corpo que vai além dos meus limites físicos.

Eu posso escolher um para me acompanhar, digo, lá fora. Onde a luz é fraca e sombria. Eu posso escolher uma mão para segurar enquanto tento caminhar na escuridão.

Eu sozinha dentro de mim e você aí onde se guarda, acenando um para o outro de suas respectivas janelas. Eu não conheço a solidão daí de dentro.

O motivo do pão e do vinho, das longas orações. Nós somos estúpidos o suficiente para isso, achar que basta uns dias no ano. Deus cobra pouco. Nada. A páscoa é isso que torna o seu coração um lugar menos sombrio. O sangue pago em seu nome e a ressurreição… A promessa. A promessa de que, um dia, o mundo vai ser um lugar bom e nós finalmente faremos as escolhas certas. A promessa do amor.