Oi

                Deixei meu coração no banheiro. Ele estava pesado para o que eu tinha que fazer e não podia contar com nada que me impedisse de fazer o que tenho que fazer. O que estou fazendo. Não posso ter vergonha do que estou fazendo. Não posso desistir do que digo que quero fazer para sempre. Mas tenho tanto medo do fracasso que olho para este teclado e já sofro.

                E se for ruim? E se eu desaprendi? E se eu sou realmente uma droga?

                Talvez devesse começar outro blog e não contar para ninguém. Mas como poderia escrever se tenho tanta vergonha de mim mesma? Não quero desistir dessa vez. Não quero apagar tudo isso.

                Queria que minhas palavras curassem a frieza do meu coração. Sofrimento não parece doer, felicidade é um bem alugado, emprestado por um preço e eu não gosto de gente que me ama. É claro que eu sempre fui exigente com a forma que quero ser amada, mas acho que estou causando dor em alguém com o meu egoísmo. Eu não era assim.

                Quando eu falo, escrevo, eu lembro o monstro que eu sou. Eu ainda sou humana e fútil, fácil de quebrar, uma covarde preguiçosa. Eu lembro aí deixo de ser. Levo tudo o que há de ruim ao mínimo porque eu tento não ser o que eu lembro que sou.

                Eu não quero falhar e não vou falhar porque já falhei.

                Eu não sei por onde vou começar, mas eu queria aproveitar esse segundo de silêncio que a vida me deu de presente, sem preço, para quebrar o gelo fino que cobre meu coração. Primeiro o vapor do chuveiro, depois o calor dos meus dedos. Amanhã o caos e o som reinam dentro de casa e eu não sei quando vou ter paz novamente.

                Escrevo algo em minha cabeça, no meu sonho, o nome é “a morte do silêncio”. Talvez um dia eu aprenda a expressar agonia e felicidade com propriedade. Hoje eu só digo “oi”.

                Oi.

               

Anúncios

Não gosto de você

                Não gosto de você, velho amigo. Não gosto pois tu me lembra que já houve uma velha eu e se esse eu é velho para mim é porque foi substituído com propósito. Meu antigo eu era infeliz, inseguro, não amava bem, não agia bem, tentava demais.

                Eu ainda tento demais, mas pelo menos agora não tento com amigos e se erro, apenas passa, não conheço mesmo aquela pessoa com quem eu passei qualquer tipo de vergonha. Eu não gosto das tensões sociais, nunca gostei, mas antes eu ao menos acreditava que valia a pena tentar, mas realmente, apenas não.

                Eu nunca conseguirei entender, não sei o limite do engraçado, não sei o limite do sincero, não sei o limite das palavras. Não acredito nesse limite.

                Não gosto de você, velho amigo, pois você me apresenta o limite de tudo o que eu poderia ter sido.

                Eu poderia ter estudado ao invés de tentar agradar…Meus amigos, nunca os encontrei por esforço, mas por coincidência, então meu suor é gratuito, certo? Sempre foi. Eu poderia ter começado algo grande, tinha tempo para aprender. Ainda tenho, mas agora a escola já se foi e as possibilidades ficaram limitadas, porque eu queria agradar aqueles amigos meus, ser engraçada, ser descolada.

                Rapaz, no que dependeu da minha personalidade, eu sempre pude ser um tipo de retardada. O mundo é selvagem, mas a gente tenta, né. A vida é isso, não dá, mas não tem outro jeito, então a gente tenta.

                Você pode até não saber viver, mas o que você sabe, trate como preciosidade. Eu sei que o que é meu, eu escondo debaixo dos lençóis e durmo abraçadinha no coração. Pelo menos essa parte eu posso ser rosa. Meus velhos amigos não, nunca os guardarei no coração, mas sim na memória, como uma outra vida. Os atuais, esses que sejam sempre como frescor do outono, um dia bonito, uma música suave tocada no violão que fale mais do que palavras. Dias assim ficam na memória também, mas a gente sabe que vão se repetir de tempos em tempos, sempre novo e agradável. O acordar numa casa que é sua.

                Enquanto for minha, será.

Crônica de lugar nenhum

Rebeca Queiroz

Não se procure nas ruas do centro de uma capital, ou na muralha da China, você não está lá. Eu sei da casca no espelho, vejo ela todos os dias durante a higiene matinal, ela diz umas coisas estranhas, ela parece com você, mas na verdade parecer não é ser. Limão pode parecer com mexerica porque é cítrico, mas você só consegue comer um deles sem açúcar.

Eu estou falando como alguém que tem consciência de quem é, quando é hora de parar e o que não deve começar, algumas coisas estão escritas em pedra e não adianta beber e ignorar, após o arrependimento vazio, a pedra ainda estará quente com a reafirmação de verdades fixas. Sua vida não está no mochilão, viajar é bom sim, divertido, aventuras são boas, mas não se engane, você não está procurando a si mesmo, está procurando experiências para tentar destacar aspectos de si mesmo que já estão ali e você ignora.

Pode não dar certo, sabe? Pode ser que você só encontre mosquitos e alergias que você jamais teria no seu país de origem. É sempre bonito ver filmes e livros sobre pessoas viajando e descobrindo coisas como budistas e esculturas que não tem no Brasil, mas isso realmente muda quem você é? Ideologias tem em todos os lugares e a maioria não vale nada, você ainda nasceu humano, você ainda é movido pela curiosidade, pela fome, pela reprodução e por sua vocação nata. Você sabe quem você é, seus problemas, o que você deve parar definitivamente de fazer porque é venenoso.

Está aí dentro de você, ué. Olha nos seus pensamentos e toma a coragem para mentir para si mesmo, nega que você não sempre soube que uns caminhos simplesmente são buraco sem fundo. Nega que foi a cultura dos filmes que fez você acreditar que precisa fazer as coisas que todo mundo faz para saber quem é você, nega a sua individualidade.

Grita que é teu direito ser diferente fazendo tudo igual. Olha para dentro e nega para mim que você tem um vazio impreenchível por tudo o que você conhece, que você não se sente sozinho mesmo de conchinha com os outros.

Eu poderia dar voltas e voltas para te ensinar o que é ser completo, mas o jeito que eu conheço é só um e eu estou cansada de ter que me ver fugindo do óbvio para que outros não se sintam desconfortáveis. Só tem um jeito: conheça a Deus e você conhecerá a si mesmo, não precisa ir buscar diferentes vertentes de evangelho, leia a bíblia e o resto caminhará. Deus estará dentro de você, e de tanto ser sincero com Deus, você será sincero consigo mesmo e aí não terá para onde fugir, você se achou. O vazio não existirá.

É difícil

Quando se está meio fora de si, meio louco, é difícil, mesmo depois de curado, distinguir o que era real ou não, ou pelo menos foi assim no meu caso. Por vezes me pego duvidando, talvez eu tenha inventado tudo aquilo, talvez eu quisesse uma forma de atenção que as ações comuns não pudessem me proporcionar. Isso faria de mim um grande safado.

Que motivação eu tenho pra acreditar que não? Ah, então eu me lembro. O medo, ah, o medo, ele está aqui comigo, sempre. Esse tipo de coisa se deixa perceber como real pelos traumas que deixa, as aflições gratuitas que talvez estejam aí pelo resto da sua vida (ainda não vivi o bastante para saber).

Várias manhãs depois que me curei, como essa, acordei com um medo maior do que eu imaginava que poderia sentir até do inferno. O medo de não ter o controle do meu corpo, de uma forma literal, eu acho. Não como se alguém me forçasse a fazer qualquer coisa, se bem que qualquer um tem medo disso, mas medo de só me perceber como eu mesmo depois de ter arrasado meus pulsos e estiver a meio caminho da morte.

Medo de talvez um dia acordar de um coma alcoólico me perguntando onde isso começou, ou de estar usando corrosivas compulsivamente tentando me destruir do modo mais usual e relativamente rápido, percebendo tarde demais… Veja, autodestruição tem seus gatilhos, veja, os traumas também. Meu gatilho é essa palavra: autodestruição, ela me faz tremer sobre meus joelhos. Ela me lembra que qualquer medo que eu possa ter, um dia já não dependeu da minha decisão, eu simplesmente o fazia realidade.

No meu tratamento, com os remédios, o primeiro e mais poderoso efeito que percebi foram minhas mãos, melhor, meu corpo todo. Ele tremia como se eu fosse doente (bem, eu era), então eu não poderia fazer absolutamente nada nem se quisesse. Isso também não me agrada, os efeitos colaterais do poço em que me lancei. Tremedeiras de frio me entristecem, como se tivesse feito algo de errado para merecer a tremedeira, acho que não usei casacos o bastante, mas nesses momentos parece tão maior que isso… Como minha eterna punição.

Talvez eu deseje que tenha sido tudo mentira e eu tenha sido um grande safado, é bem melhor que a alternativa que já conheço bem. Talvez a vergonha teria sido melhor que a dor das consequências, as noites nervosas sobre um passado não tão distante. Bem, já faz um ano, eu acho… Afinal, quem está realmente contando?

Eu deveria, se contasse saberia a frequência do medo, se ele está diminuindo, se a fobia do sangue esteve aqui recentemente… Não sei, teria que ver Enigma do Horizon de novo. Não o quero, o que quero é que essas manhãs acabem.

É, acho que isso é uma oração. Aqui dentro tudo é.

                Eu estou sozinha dentro de mim. Meus olhos, minha boca, são a janela de tudo o que guardo aqui. Eu posso até tentar mostrar, mas são janelas tão pequenas que eu posso dar apenas um vislumbre do que realmente é. É um lugar grande demais para que até eu conheça realmente, eu posso apenas tropeçar em algo e descobrir que sempre esteve lá.

A ideia de conhecer tudo por lá é tediosa. Acho que o que dá a graça à vida do jeito que ela é são as coisas que nos deixam confusos pela pouca informação que temos: o universo lá fora, o fundo do oceano, a cidade vizinha, nosso interior.

É preciso foco, mas também é bom saber que não há um limite para quase nada. Todos os dias, eu sou alguém diferente, a metamorfose do espírito não espera alterações físicas para se consolidar. Eu estou aqui, mas não estou mais.

Sozinha dentro de mim, eu não me sinto tão sozinha. Eu não estou, chamem de mitologia, delírio, mas a verdade é que isso não faz a menor diferença. Nunca se está sozinho com Deus. Eu posso escolher entre estar sozinha com outros da minha espécie tola e maldosa que insistem em me desacreditar, ou posso estar no silêncio da minha alma, ouvindo o som delicado do amor movendo-se como o vento dentro de um corpo que vai além dos meus limites físicos.

Eu posso escolher um para me acompanhar, digo, lá fora. Onde a luz é fraca e sombria. Eu posso escolher uma mão para segurar enquanto tento caminhar na escuridão.

Eu sozinha dentro de mim e você aí onde se guarda, acenando um para o outro de suas respectivas janelas. Eu não conheço a solidão daí de dentro.

O motivo do pão e do vinho, das longas orações. Nós somos estúpidos o suficiente para isso, achar que basta uns dias no ano. Deus cobra pouco. Nada. A páscoa é isso que torna o seu coração um lugar menos sombrio. O sangue pago em seu nome e a ressurreição… A promessa. A promessa de que, um dia, o mundo vai ser um lugar bom e nós finalmente faremos as escolhas certas. A promessa do amor.

Inocência

Minhas pernas tremem por saber que eu estou prestes a fazer algo importante, na verdade, a coisa mais importante. Eu fecho todas aquelas coisas que eu finjo que não são supérfluas durante o dia e que passo a ignorar durante a noite.

Lamento sempre por não poder fazer isso com mais estilo, mas o Word atende bem minhas necessidades e não tenho tempo para montar máquinas de escrever. Isso tudo é sobre se abrir, ser vulnerável, deixar o mundo te matar, deixar o mundo te amar.

Você assiste a si mesmo levando uma facada no peito, rebobina e assiste novamente. Quantas vezes forem necessárias para trazer lágrimas aos olhos. Nunca tive problemas com chorar. Minha cara fica roxa e inchada, mas dói bem menos que sorrir quando quer chorar.

Nada nunca vai ser expressado realmente bem em toda a sua complexidade, pois depende dos ângulos e pensamentos, personalidades. O melhor livro do mundo seria escrito por todas as pessoas.

Eu sempre ignoro isso. Farei o que faço porque é a coisa mais importante, mesmo que eu nunca vá fazer perfeitamente, pois é isso que traz a alegria ao trabalho, o desafio que é fazer algo realmente bom, o desafio que é fazer algo tão bom que possa, além de entender você, entender mais alguém.

Não é pelo dinheiro, ninguém nunca ficará rico dessa forma. Talvez para alguns seja pela imagem de intelecto, não sei, mas para mim não é. É a minha estupidez que me traz aqui, a burrice de realmente acreditar que isso se importa comigo como eu me importo com isso, mas é como sempre dizem por aí: gente inocente é mais feliz.