Elogio pra fazer sorrir 

– Que sorriso bonito você tem.

– Obrigada,vou contar à minha mãe que você gostou do trabalho dela (risos). Eu só contribuí com a alegria.

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Não gosto de você

                Não gosto de você, velho amigo. Não gosto pois tu me lembra que já houve uma velha eu e se esse eu é velho para mim é porque foi substituído com propósito. Meu antigo eu era infeliz, inseguro, não amava bem, não agia bem, tentava demais.

                Eu ainda tento demais, mas pelo menos agora não tento com amigos e se erro, apenas passa, não conheço mesmo aquela pessoa com quem eu passei qualquer tipo de vergonha. Eu não gosto das tensões sociais, nunca gostei, mas antes eu ao menos acreditava que valia a pena tentar, mas realmente, apenas não.

                Eu nunca conseguirei entender, não sei o limite do engraçado, não sei o limite do sincero, não sei o limite das palavras. Não acredito nesse limite.

                Não gosto de você, velho amigo, pois você me apresenta o limite de tudo o que eu poderia ter sido.

                Eu poderia ter estudado ao invés de tentar agradar…Meus amigos, nunca os encontrei por esforço, mas por coincidência, então meu suor é gratuito, certo? Sempre foi. Eu poderia ter começado algo grande, tinha tempo para aprender. Ainda tenho, mas agora a escola já se foi e as possibilidades ficaram limitadas, porque eu queria agradar aqueles amigos meus, ser engraçada, ser descolada.

                Rapaz, no que dependeu da minha personalidade, eu sempre pude ser um tipo de retardada. O mundo é selvagem, mas a gente tenta, né. A vida é isso, não dá, mas não tem outro jeito, então a gente tenta.

                Você pode até não saber viver, mas o que você sabe, trate como preciosidade. Eu sei que o que é meu, eu escondo debaixo dos lençóis e durmo abraçadinha no coração. Pelo menos essa parte eu posso ser rosa. Meus velhos amigos não, nunca os guardarei no coração, mas sim na memória, como uma outra vida. Os atuais, esses que sejam sempre como frescor do outono, um dia bonito, uma música suave tocada no violão que fale mais do que palavras. Dias assim ficam na memória também, mas a gente sabe que vão se repetir de tempos em tempos, sempre novo e agradável. O acordar numa casa que é sua.

                Enquanto for minha, será.

Isso é meio sentimental, mas tudo que eu faço é, não é?

Amizades dão trabalho e Deus sabe que eu sou uma preguiçosa. Acho que eu e ela já estávamos meio que destinadas a um final. Ele ainda não chegou propriamente, mas eu sei que eu não consigo manter profundidade sem manter uma relação próxima. Então o fio que nos ligava, que já estava esticado pela distância, teve que se esticar pelo menos dez vezes mais e eu sei que ele vai quebrar.

Ela não deve saber disso, porque ela está acostumada, esteve longe dos amigos dela de lá por um bom tempo, mas em algum momento ela vai esquecer o porquê de eu ter sido sua favorita (será?) algum dia. Pela mesma razão que seus amigos de lá não o eram quando ela estava aqui: ela apenas se esqueceu.

Eu não jogo a culpa nela, pois a culpa é, de fato, minha. Ela poderia manter essas conversas mensais de whatsapp (uma média de dois minutos até ela sumir) e continuar “próxima”, mas eu nunca conseguiria, ela apareceria apenas para ser minha “dor fantasma” (sim, estou plagiando Metal Gear na cara de pau). O membro que me falta e me dói. Eu não gosto de me enganar pensando que eu consigo manter amizades convencionais, eu não consigo pensar que, uma vez que apostei meu coração nisso, eu possa voltar atrás e ficar atrás da linha amarela, esperando minha vez de participar.

Eu não choro mais por ela porque essa dormência já é madura, eu deixo meu coração esquecer de novo. Até porque nunca é convencional, daqui pra frente é só coisa de adulto, não é? Trabalhar para ter uma amizade, e daí então eu tenho que escolher quem vai levar o produto do meu trabalho, o que entregar pra essas pessoas.

Quando estávamos ligadas por aquele fio que vai quebrar/ou já quebrou, eu segurava ela no chão acho. Dizia pra não fazer as coisas e já magoei ela sendo sincera demais, mas tudo tem suas vantagens e desvantagens, eu não conseguia ser um sem ser o outro… O que eu quero dizer é que eu espero que com os muitos amigos que ela tem lá, ela ainda ache um que possa segurar os pés dela e dizer que ela consegue ser melhor que isso e que só quem segura ela é ela mesma e que ela precisa aprender a fazer suas coisas sozinha.

E pra aprendizados futuros, talvez eu precise ouvir isso também.

Eu no chão, todos no teto

Acho que corrompi minha mente com textos acadêmicos. Não lembro mais quem eu era fora deles.

Eu costumava observar como se tudo tivesse importante, mas a faculdade, o lugar em que você vai para ser surrado voluntariamente, me deu a impressão de que eu já sabia de tudo e não sabia de nada. Se eu sabia de tudo, não havia mais nada a aprender, se eu não sabia de nada, devia ter vergonha de qualquer coisa dizer.

“Eles” dizem que você nunca pode voltar à ignorância. Eu me sinto mais ignorante, parece que mais que nunca eu preciso buscar minha alma, já que o mundo não quer eu a encontre. Até hoje, eu ainda preciso fazer o máximo de coisas para preencher o vazio da minha mente, que no silêncio dessas férias insiste em me lembrar que eu me quebrei, eu desisti, eu disse que isto era meu sonho e desisti.

Vamos ser francos, o país está quebrado, alguém como eu, que não está entre os acadêmicos, nem respeita os besteiróis, não há lugar de existência. A pessoa que eu tive que ser esse ano reclama muito, como diz minha amiga.

Então eu pensei: eu não reclamava tanto assim. O problema é que agora eu me vejo cheia de motivos para reclamar. As pessoas dizem para você que a gravidade existe e andam pelo teto. Quando todos andam pelo teto, você tem que descobrir como andar também, ou vão descobrir que a gravidade funciona em você, então eu me esforcei e aprendi a escrever do jeito que ELES querem. No papel eu não sou mais eu, no papel eu perco a minha “subjetividade”, não sou eu quem diz aquelas coisas apesar desse alguém dizer que é, mas é o ser humano sobrevivente que surgiu na superfície para me salvar.

Mas esse momento para mim é bem como um náufrago tentando viver em sua casa depois de seis meses: o sofá parece estranho, você espera que apareçam mais perigos, guarda biscoitos do lado da cama, você nunca se sente verdadeiramente preparado para relaxar, eu não me sinto preparada para relaxar, porque eu temo que alguém veja que eu sou aqui, onde vos escrevo e me despreze por querer ser normal, por querer seguir uma vida reta e cheia de poesia (sim, você pode ter os dois).

Eu estou de férias, mas meu espírito diz que ainda não é a hora, meu espírito diz para lutar, porque os apedrejadores ainda estão por aqui e se eles virem meus olhos, eu me tornarei alvo e apesar de eu ser a única passível de gravidade por aqui, as pedras sempre caem para baixo.