Isso é meio sentimental, mas tudo que eu faço é, não é?

Amizades dão trabalho e Deus sabe que eu sou uma preguiçosa. Acho que eu e ela já estávamos meio que destinadas a um final. Ele ainda não chegou propriamente, mas eu sei que eu não consigo manter profundidade sem manter uma relação próxima. Então o fio que nos ligava, que já estava esticado pela distância, teve que se esticar pelo menos dez vezes mais e eu sei que ele vai quebrar.

Ela não deve saber disso, porque ela está acostumada, esteve longe dos amigos dela de lá por um bom tempo, mas em algum momento ela vai esquecer o porquê de eu ter sido sua favorita (será?) algum dia. Pela mesma razão que seus amigos de lá não o eram quando ela estava aqui: ela apenas se esqueceu.

Eu não jogo a culpa nela, pois a culpa é, de fato, minha. Ela poderia manter essas conversas mensais de whatsapp (uma média de dois minutos até ela sumir) e continuar “próxima”, mas eu nunca conseguiria, ela apareceria apenas para ser minha “dor fantasma” (sim, estou plagiando Metal Gear na cara de pau). O membro que me falta e me dói. Eu não gosto de me enganar pensando que eu consigo manter amizades convencionais, eu não consigo pensar que, uma vez que apostei meu coração nisso, eu possa voltar atrás e ficar atrás da linha amarela, esperando minha vez de participar.

Eu não choro mais por ela porque essa dormência já é madura, eu deixo meu coração esquecer de novo. Até porque nunca é convencional, daqui pra frente é só coisa de adulto, não é? Trabalhar para ter uma amizade, e daí então eu tenho que escolher quem vai levar o produto do meu trabalho, o que entregar pra essas pessoas.

Quando estávamos ligadas por aquele fio que vai quebrar/ou já quebrou, eu segurava ela no chão acho. Dizia pra não fazer as coisas e já magoei ela sendo sincera demais, mas tudo tem suas vantagens e desvantagens, eu não conseguia ser um sem ser o outro… O que eu quero dizer é que eu espero que com os muitos amigos que ela tem lá, ela ainda ache um que possa segurar os pés dela e dizer que ela consegue ser melhor que isso e que só quem segura ela é ela mesma e que ela precisa aprender a fazer suas coisas sozinha.

E pra aprendizados futuros, talvez eu precise ouvir isso também.

Eu no chão, todos no teto

Acho que corrompi minha mente com textos acadêmicos. Não lembro mais quem eu era fora deles.

Eu costumava observar como se tudo tivesse importante, mas a faculdade, o lugar em que você vai para ser surrado voluntariamente, me deu a impressão de que eu já sabia de tudo e não sabia de nada. Se eu sabia de tudo, não havia mais nada a aprender, se eu não sabia de nada, devia ter vergonha de qualquer coisa dizer.

“Eles” dizem que você nunca pode voltar à ignorância. Eu me sinto mais ignorante, parece que mais que nunca eu preciso buscar minha alma, já que o mundo não quer eu a encontre. Até hoje, eu ainda preciso fazer o máximo de coisas para preencher o vazio da minha mente, que no silêncio dessas férias insiste em me lembrar que eu me quebrei, eu desisti, eu disse que isto era meu sonho e desisti.

Vamos ser francos, o país está quebrado, alguém como eu, que não está entre os acadêmicos, nem respeita os besteiróis, não há lugar de existência. A pessoa que eu tive que ser esse ano reclama muito, como diz minha amiga.

Então eu pensei: eu não reclamava tanto assim. O problema é que agora eu me vejo cheia de motivos para reclamar. As pessoas dizem para você que a gravidade existe e andam pelo teto. Quando todos andam pelo teto, você tem que descobrir como andar também, ou vão descobrir que a gravidade funciona em você, então eu me esforcei e aprendi a escrever do jeito que ELES querem. No papel eu não sou mais eu, no papel eu perco a minha “subjetividade”, não sou eu quem diz aquelas coisas apesar desse alguém dizer que é, mas é o ser humano sobrevivente que surgiu na superfície para me salvar.

Mas esse momento para mim é bem como um náufrago tentando viver em sua casa depois de seis meses: o sofá parece estranho, você espera que apareçam mais perigos, guarda biscoitos do lado da cama, você nunca se sente verdadeiramente preparado para relaxar, eu não me sinto preparada para relaxar, porque eu temo que alguém veja que eu sou aqui, onde vos escrevo e me despreze por querer ser normal, por querer seguir uma vida reta e cheia de poesia (sim, você pode ter os dois).

Eu estou de férias, mas meu espírito diz que ainda não é a hora, meu espírito diz para lutar, porque os apedrejadores ainda estão por aqui e se eles virem meus olhos, eu me tornarei alvo e apesar de eu ser a única passível de gravidade por aqui, as pedras sempre caem para baixo.

Crônica de lugar nenhum

Rebeca Queiroz

Não se procure nas ruas do centro de uma capital, ou na muralha da China, você não está lá. Eu sei da casca no espelho, vejo ela todos os dias durante a higiene matinal, ela diz umas coisas estranhas, ela parece com você, mas na verdade parecer não é ser. Limão pode parecer com mexerica porque é cítrico, mas você só consegue comer um deles sem açúcar.

Eu estou falando como alguém que tem consciência de quem é, quando é hora de parar e o que não deve começar, algumas coisas estão escritas em pedra e não adianta beber e ignorar, após o arrependimento vazio, a pedra ainda estará quente com a reafirmação de verdades fixas. Sua vida não está no mochilão, viajar é bom sim, divertido, aventuras são boas, mas não se engane, você não está procurando a si mesmo, está procurando experiências para tentar destacar aspectos de si mesmo que já estão ali e você ignora.

Pode não dar certo, sabe? Pode ser que você só encontre mosquitos e alergias que você jamais teria no seu país de origem. É sempre bonito ver filmes e livros sobre pessoas viajando e descobrindo coisas como budistas e esculturas que não tem no Brasil, mas isso realmente muda quem você é? Ideologias tem em todos os lugares e a maioria não vale nada, você ainda nasceu humano, você ainda é movido pela curiosidade, pela fome, pela reprodução e por sua vocação nata. Você sabe quem você é, seus problemas, o que você deve parar definitivamente de fazer porque é venenoso.

Está aí dentro de você, ué. Olha nos seus pensamentos e toma a coragem para mentir para si mesmo, nega que você não sempre soube que uns caminhos simplesmente são buraco sem fundo. Nega que foi a cultura dos filmes que fez você acreditar que precisa fazer as coisas que todo mundo faz para saber quem é você, nega a sua individualidade.

Grita que é teu direito ser diferente fazendo tudo igual. Olha para dentro e nega para mim que você tem um vazio impreenchível por tudo o que você conhece, que você não se sente sozinho mesmo de conchinha com os outros.

Eu poderia dar voltas e voltas para te ensinar o que é ser completo, mas o jeito que eu conheço é só um e eu estou cansada de ter que me ver fugindo do óbvio para que outros não se sintam desconfortáveis. Só tem um jeito: conheça a Deus e você conhecerá a si mesmo, não precisa ir buscar diferentes vertentes de evangelho, leia a bíblia e o resto caminhará. Deus estará dentro de você, e de tanto ser sincero com Deus, você será sincero consigo mesmo e aí não terá para onde fugir, você se achou. O vazio não existirá.

Ah… As liberdades?!

O poeta se acha um deus. Com suas palavras, o poeta pode se dar ao luxo de brincar de vida sem necessitar de um computador e dinheiro. O poeta não tem limites, ah, ele bebe, ele fuma (mais de uma erva conhecida), ele mata, ele come. O poeta é mesmo um grande safado.

Mas o poeta tem um Nêmese. Até porque quem o poeta pensa que é para se achar um deus? O poeta não manda em nada. Ele anda junto os muros, olhando as pessoas que andam pelo meio da calçada com liberdade, tentando imitar esse tipo de felicidade. O poeta passa a espuma de barbear pelo rosto e amacia a própria cara quando ninguém dá importância.

O poeta se limita, limita a arte, limita a humanidade. O poeta é seu próprio Nêmese e seu Nêmese é o assassino da alma do homem. O poeta compra as liberdades toscas com facilidade, ele leva para casa as putarias da vida e acredita que, em algum lugar no meio da podridão, vai encontrar o tesouro de seu talento. Ele adora repetir o nome daquilo que choca a quem não gosta. Ele quer ser diferente, mas, com o tempo, ser diferente se iguala a ser igual a todos os diferentes num raio de 100 km.

Então ele só vai chocar com as coisas que ele acha que deve, e o que não chocava vira tabu, liberdade poética só vale para si. Ele não faz mais a barba porque pensa que ela traz a impressão de um homem que pensa tanto, tanto, que mal tem tempo para fazer a barba ou cortar o cabelo. O poeta também apara a barba minuciosamente todos os dias e repete o nó da gravata borboleta até ficar intelectual o suficiente. Ele tatua o rosto de homens bobos e mortos que, à essa altura, devem estar conhecendo o inferno muito bem.

O poeta se torna qualquer outra coisa que não um poeta. As palavras ainda lhe trazem a sensação de poder, mas elas não lhes obedecem mais, seu talento se escondeu em algum lugar dentro da barba, rente ao belo queixo que erguia ao ter consciência de sua própria alma (agora tão morta) no papel.

O poeta morreu de alguma forma óbvia e tosca, como seus ídolos, de overdose ou fuzilado, quem sabe? Mas na realidade, o poeta morreu muito antes, quando esqueceu de onde vinha todo o seu amor próprio e transformou este em arrogância. A solidão foi deixada para traz, trocada por um sentimento parecido, mas cheio de pânico, como estar esmagado por uma multidão sem ser percebido.

Cheio de si e de suas liberdades, de sua petulância inventada no meio do caminho de sua formação de homem feito. Liberdade, liberdade, que é isto que se canta no carnaval? O poeta era livre, quando não achava que era. Quem anda sempre em frente e tranquilo não pode olhar para cima. O poeta olha para quem olhava para frente e mata seu destino, não tão destino assim. Mata sua liberdade ao querer a prisão alheia. As flores que decoram as grades têm cheiro de morte, como nos titãs, mas a dor não vai curar essas lástimas, a escolha do poeta só muda se ele a mudar.

Morreu sem entender verdadeiramente a liberdade, o poeta viveu dos exageros, como tantos outros antes. Não percebeu nas letras a miséria de quem escreveu, a privação da liberdade em prol do exagero. Ah, e o amor.

O amor era burguês, seja lá o que isso significasse, talvez achasse tão bonito que o tatuou em uma costela perdida que a funerária maquiou, sem saber bem se aquilo era bom ou não. Se apaixonou, mas não foi digno do amor. Bebeu do vinho, mas não foi digno do mel.

Affocare

                Tic-tac, o relógio grita. Ele nunca me deixa em paz, esteve pendurado em minhas costas por toda a vida e nunca tirou férias. Eu só tenho oito horas para fazer isso. Não vai dar tempo, não pode haver tempo, é impossível. A ansiedade me impede. A ansiedade altera a estrutura do tempo. Ele não anda linear, ele salta em minha cabeça.

A ansiedade fez o tempo passar do gelatinoso para o liquido, e eu só consigo tentar nadar contra a corrente, sem conseguir fazer o que tem que ser feito. Nade, pequena, nade sem parar e encontre o seu destino, morta da exaustão de lutar contra o inevitável.

Agora olhe para frente.

O relógio nunca me deixa em paz. Com a exceção da regra, é claro.

As coisas são desse jeito, veja: o tempo não para por você, levante sem confiar. Ache a paz. Não a procure nos relógios, eles só gritam. Gritam fascinados por sua despreocupação. A paz está na despreocupação. Não acha? Procure seu gatilho.

Atire em si mesmo.

A bala atravessa seu coração como uma flecha deveria o fazer. Eu sei, é o que parece. A paz está aí, alojada no seu peito.

Nos olhos de seu homem, no amor do Espírito, no abraço de seu pai.

Não caia agora, nós podemos conseguir ficar aqui em cima mais um tempo, só respire e confie. Minhas mãos não vão suar desta vez, prometo. Os olhos de meu homem… Nunca esquecerei de como ficam belos na luz do sol, de como eles sempre mostram uma seriedade que na realidade é apenas uma barreira.

A água não deixa respirar. Só desta vez, vamos tentar. Porque vale a pena ver o tempo passar ao seu lado.